Constelações
Familiares segundo Bert Hellinger
(do
site www.hellinger.com)
O
Trabalho com as Constelações Familiares - Uma introdução
de Bert Hellinger
O
caminho do conhecimento
Dois movimentos nos levam ao conhecimento. O primeiro se estende e
quer abarcar algo até então desconhecido para dele se
apropriar e dele dispor. O esforço científico pertence
a esse tipo e sabemos quanto ele transformou, assegurou e enriqueceu
o nosso mundo e a nossa vida. O segundo movimento se origina quando
nos detemos, durante nosso esforço em abarcar o desconhecido,
e dirigimos o olhar, não mais para um determinado objeto palpável,
mas para um todo. Assim, o olhar está disposto a receber, simultaneamente,
a diversidade que se encontra à sua frente. Quando nos deixamos
levar por esse movimento, por exemplo, diante de uma paisagem, uma
tarefa ou um problema, notamos como nosso olhar fica, ao mesmo tempo,
pleno e vazio. Pois só podemos nos expor à plenitude
e suportá-la, quando prescindimos primeiramente dos detalhes.
Assim,
detemo-nos em nosso movimento exploratório e nos retraímos
um pouco, até atingirmos aquele vazio que pode resistir à
plenitude e à diversidade. Esse movimento, que primeiramente
se detém e depois se retrai, chamo de fenomenológico.
Ele nos conduz a conhecimentos distintos daqueles obtidos pelo movimento
do conhecimento exploratório. Contudo, ambos se completam.
Pois também no movimento do conhecimento científico
exploratório precisamos, às vezes, deter-nos e dirigir
nosso olhar, do estreito ao amplo, do próximo ao distante.
Por sua vez, o conhecimento resultante do procedimento fenomenológico
precisa ser verificado no indivíduo e no próximo.
O
processo
No caminho do conhecimento fenomenológico, expomo-nos,
dentro de um determinado horizonte, à diversidade dos fenômenos,
sem escolher entre eles e nem avaliá-los. Esse caminho do conhecimento
exige, portanto, um esvaziar-se, tanto em relação às
idéias preexistentes quanto aos movimentos internos, sejam
eles da esfera do sentimento, da vontade ou do julgamento. Nesse processo,
a atenção é simultaneamente dirigida e não
dirigida, centrada e vazia. A postura fenomenológica requer
uma prontidão tensionada para a ação, sem passar,
entretanto, à execução. Graças a essa
tensão, tornamo-nos extremamente capazes e prontos para perceber.
Quem a suporta percebe, depois de algum tempo, como a diversidade
presente no horizonte se dispõe em torno de um centro e, de
repente, reconhece uma conexão, uma ordem talvez, uma verdade
ou o passo que leva adiante. Esse conhecimento provém igualmente
de fora, é vivenciado como uma dádiva e é, via
de regra, limitado.
O
Trabalho com as Constelações Familiares
O que o procedimento fenomenológico possibilita e
requer pode ser experimentado e descrito de modo especialmente marcante
através do trabalho com as constelações familiares.
Pois a colocação da constelação familiar
é, por um lado, o resultado de um caminho do conhecimento fenomenológico
e, por outro lado, o procedimento fenomenológico obtém
resultado, quando se trata do essencial, apenas através da
contenção e confiança na experiência e
compreensão por ele possibilitadas.
O
cliente
O que acontece quando um cliente coloca a sua família
na psicoterapia? Em primeiro lugar, escolhe entre as pessoas de um
grupo, representantes para os membros de sua família. Portanto,
para o pai, para a mãe, para os irmãos e para si mesmo,
não importando quem ele escolhe para representar os diversos
membros de sua família. Na verdade, é melhor ainda se
escolher os representantes independentemente de aparências externas
e sem uma determinada intenção. Isto já é
o primeiro passo em direção a uma contenção
e uma renúncia à intenções e velhas imagens.
Quem
escolhe seguindo aspectos exteriores, por exemplo, idade ou características
corporais não se encontra numa postura aberta para o essencial
e invisível. Limita a força expressiva da colocação
através de considerações externas. Com isso a
colocação de sua constelação familiar
já pode estar, para ele, talvez fadada ao fracasso. Por isso
também não importa e algumas vezes é melhor que
o terapeuta escolha os representantes e deixe o cliente configurar
com estes a sua família. Porém, o que deve ser considerado
é o sexo das pessoas escolhidas, isto é, que homens
sejam escolhidos para representar os homens e mulheres para as mulheres.
Escolhidos
os representantes o cliente coloca-os no espaço um em relação
ao outro. No momento da colocação é de grande
ajuda que ele os segure com ambas as mãos pelos ombros e assim
em contato com eles os posicione em seu lugar. Durante a montagem
permanece centrado, prestando atenção ao seu movimento
interior, seguindo-o até sentir que o lugar para onde conduziu
o representante seja o certo. Durante a colocação está
em contato não somente consigo e com o representante, senão
também com uma esfera, recebendo daí também sinais
que o ajudarão a encontrar o lugar certo para essa pessoa.
Prossegue assim com os outros representantes até que todos
se encontrem em seus lugares. Durante este processo o cliente está
, por assim dizer, esquecido de si mesmo.
Desperta
deste esquecimento de si mesmo quando todos estão posicionados.
Algumas vezes é de ajuda quando, em seguida, dá uma
volta e corrige o que ainda não está totalmente certo.
Senta-se, então. Podemos perceber imediatamente quando alguém
não se encontra nesta postura de esquecimento de si mesmo e
contenção. Por exemplo, quando prescreve para cada um
dos representantes uma determinada postura corporal no sentido de
uma escultura, ou quando monta a constelação muito depressa
como se seguisse uma imagem preconcebida ou quando se esquece de colocar
uma pessoa, ou quando declara que uma pessoa já está
em seu lugar certo sem tê-la posicionado de modo concentrado.
Uma
constelação familiar que não foi configurada
deste modo concentrado termina num beco sem saída ou de forma
confusa.
O
terapeuta
O terapeuta precisa também se libertar de suas intenções
e imagens a fim de que a colocação de uma constelação
familiar tenha êxito. Na medida em que se contém e se
expõe centrado à constelação, reconhece
imediatamente se o cliente quer influenciá-lo através
de imagens preconcebidas ou esquivar-se daquilo que começa
a se mostrar. Então ele ajuda-o a se centrar e o conduz a um
estado de disposição para que se exponha ao que está
acontecendo. Se isso não for possível, pára com
a colocação.
Os
representantes
Exige-se também dos representantes uma contenção
interna de suas próprias idéias, intenções
e medo. Isso significa que eles devem observar exatamente as mudanças
que se manifestam em seu estado corporal e seus sentimentos enquanto
são colocados. Por exemplo, que o coração bate
mais depressa, que querem olhar para o chão, que se sentem
repentinamente pesados ou leves, ou estão com raiva ou tristes.
É também de grande ajuda quando prestam atenção
às imagens que emergem e que ouçam os sons e palavras
que afloram.
Por
exemplo, um americano que estava começando a aprender alemão,
ouvia constantemente durante uma colocação familiar
na qual ele representava um pai a sentença alemã: "Diga
Albert". Mais tarde ele perguntou ao cliente se o nome Albert
tinha algum significado para ele. "Mas é claro",
foi a resposta", é o nome do meu pai, do meu avô
e Albert é o meu segundo prenome."
Uma
outra pessoa que representava em uma constelação o filho
de um pai que havia morrido em um acidente de helicóptero ouvia
constantemente o ruído do rotor de um helicóptero. Certa
vez este filho tinha sido o piloto de um helicóptero em que
estava também o pai. O helicóptero caiu, mas os dois
sobreviveram. Para que essa postura obtenha resultado são naturalmente
necessárias uma grande sensibilidade e uma enorme prontidão
para se distanciar de suas próprias idéias. E o terapeuta
precisa ser muito cauteloso para que as fantasias dos representantes
não sejam captadas como percepções. Tanto o terapeuta
quanto os representantes podem escapar mais facilmente deste perigo
quanto menos informações tiverem sobre a família.
As
perguntas
A percepção fenomenológica obtém
melhores resultados quando se pergunta só o essencial, diretamente
antes da colocação familiar. As perguntas necessárias
são:
Quem
pertence à família?
Existem natimortos ou membros da família que morreram precocemente
? Houve na família destinos especiais, por exemplo deficientes?
Um dos pais ou avós teve anteriormente um relacionamento firme,
portanto, foi noivo(a), casado(a) ou teve de alguma forma um relacionamento
longo e significante?
Uma anamnésia extensa dificulta, via de regra, a percepção
fenomenológica tanto do terapeuta como também dos representantes.
Por isso, o terapeuta recusa também conversas prévias
ou questionários que vão além das perguntas mencionadas.
Pelo mesmo motivo os clientes não devem dizer nada durante
a colocação nem os representantes devem fazer peguntas
de qualquer tipo para os clientes.
Centrar-se
em si mesmo
Alguns representantes são tentados a extrair da imagem
externa da constelação o que sentem em vez de prestar
atenção à sua percepção corporal
e ao seu sentimento interno imediato. Por exemplo, o representante
de um pai dissera que se sentia confrontado pelos filhos porque estes
tinham sido colocados à sua frente. Entretanto, quando prestou
atenção ao seu sentimento interior imediato, percebeu
que estava se sentindo bem. Ele se desviara de sua percepção
imediata por causa da imagem externa. Algumas vezes, quando um representante
sente algo que lhe parece indecoroso, não o menciona. Por exemplo,
que ele, como pai, sente uma atração erótica
pela filha. Ou uma representante não se arrisca a dizer que
ela, como mãe, se sente melhor quando um de seus filhos quer
seguir um membro da família na morte.
O
terapeuta presta atenção, portanto, aos leves sinais
corporais, por exemplo, um sorriso ou um retesamento, ou uma aproximação
involuntária das pessoas. Quando comunica tais percepções
os representantes podem verificar novamente a sua própria percepção.
Alguns representantes fazem também afirmações
amáveis porque pensam que com isso poderão ajudar ou
consolar o cliente. Tais representantes não estão em
contato com o que acontece e o terapeuta deve substitui-los por outros
imediatamente.
Os
sinais
Um terapeuta que não se mantém constantemente
durante a situação inteira em sua percepção
centrada, isto é, sem intenção e sem medo, é
levado, muitas vezes através de afirmações de
primeiro plano a um caminho errado ou a um beco sem saída.
Com isso os outros representantes ficam também inseguros. Existe
um sinal infalível se uma colocação familiar
está no caminho certo ou não. Quando começa a
se perceber no grupo observador inquietação e a atenção
diminui, a colocação não tem mais chance. Nesse
caso, quanto mais depressa o terapeuta interromper o trabalho tanto
melhor.
A interrupção permite a todos os participantes concentrar-se
novamente e depois de algum tempo recomeçar o trabalho. Algumas
vezes o grupo observador também apresenta sugestões
que levam adiante. Entretanto isto deve ser apenas uma observação.
Se tentarem somente adivinhar ou interpretar, isso aumenta a confusão.
Então o terapeuta também deve parar a discussão
e reconduzir o grupo à concentração e seriedade.
A
abertura
Tratei minuciosamente destas formas de procedimento e dos
obstáculos que podem surgir a fim de por limites às
colocações feitas levianamente. Senão o trabalho
com as constelações familiares pode cair facilmente
em descrédito. Alguns procedem de outra forma nas constelações
familiares. Se isso ocorrer a partir de uma atenção
centrada pode obter bons resultados. Entretanto, se ocorrer somente
por uma necessidade de delimitação ou para ganhar prestígio
a abertura fenomenológica fica limitada devido às intenções.
A
melhor forma de adquirir prestígio é quando se tem novas
percepções que podem ser comprovadas pelos resultados
e nas quais se deixa também outros participarem. Se, entretanto,
a delimitação segue idéias teóricas ou
é influenciada por intenções e medos que se recusam
em concordar com a realidade que se mostra, isto leva à perda
da prontidão para apreender, com as respectivas consequências
para o efeito terapêutico. Se a colocação da constelação
familiar for feita só por curiosidade ela perde a sua seriedade
e força. Restam, então, do fogo talvez apenas as cinzas
e do vestido apenas a cauda.
O
início
De volta agora ao trabalho com as constelações
familiares. A questão que o terapeuta deve decidir, em primeiro
lugar, é:
Coloco
a família atual ou a de origem?
Deu bons resultados começar com a família atual. Pois,
dessa maneira, pode-se colocar mais tarde aquelas pessoas da família
de origem que ainda agem fortemente na família atual. Obtém-se
assim uma imagem em que as influências que sobrecarregam e curam
através das várias gerações ficam visíveis
e podem ser sentidas. Unicamente quando os destinos da família
de origem são especialmente trágicos é que se
começa com a família de origem.
A
próxima pergunta é:
Com
quem começo a colocação?
Começa-se com o núcleo familiar, portanto, pai, mãe
e filhos. Se existe um natimorto ou uma criança que morreu
precocemente, coloca-se esta criança mais tarde para poder
ver qual o efeito que tem na família quando está à
vista. A regra é começar com poucas pessoas, deixar-se
conduzir por elas e desenvolver passo a passo a constelação.
O
procedimento
Quando a primeira imagem é configurada dá-se ao cliente
e aos representantes um pouco de tempo para que se exponham à
ela, deixando-a atuar. Muitas vezes os representantes começam
a reagir espontaneamente, por exemplo, começam a tremer ou
chorar ou abaixam a cabeça, respiram com dificuldade ou olham
com interesse ou apaixonadamente para alguém. Alguns terapeutas
perguntam aos representantes muito depressa como eles estão
se sentindo, impedindo ou interrompendo dessa maneira este processo.
Quem
faz perguntas aos representantes apressadamente, utiliza este procedimento
facilmente como substituto para a sua própria percepção,
tornando os representantes inseguros também. O terapeuta deixa,
em primeiro lugar, a imagem atuar também sobre ele. Freqüentemente
vê imediatamente qual a pessoa que está mais carregada
ou em perigo. Se, por exemplo, ela foi colocada de costas ou de lado,
o terapeuta vê que ela quer partir ou morrer. Apenas precisa,
sem perguntar nada a ninguém, dirigi-la uns poucos passos à
frente na direção em que está olhando e prestar
atenção ao efeito que esta mudança provoca nela
e nos outros representantes.
Ou
se todos os representantes olham para uma mesma direção
o terapeuta sabe, imediatamente, que alguém deve estar na frente
deles: uma pessoa que foi esquecida ou excluída. Por exemplo,
uma criança que morreu precocemente ou um noivo anterior da
mãe que morreu na guerra. Então ele pergunta ao cliente
quem poderia ser e coloca a pessoa no quadro antes que qualquer um
dos representantes tenha dito algo.
Ou
quando a mãe está cercada pelos filhos dando a impressão
de que eles estão impedindo a sua partida, o terapeuta pergunta
ao cliente imediatamente: O que aconteceu na família de origem
da mãe que possa esclarecer esta atração por
partir. Então ele procura, em primeiro lugar, um alívio
e solução para a mãe antes de continuar a trabalhar
com os outros representantes.
O
terapeuta desenvolve, portanto, os próximos passos a partir
da colocação inicial e busca informações
adicionais do cliente para o próximo passo, sem fazer ou perguntar
nada além do que ele precise para este passo. Com isso a constelação
mantém a concentração no essencial e a sua especial
densidade e tensão. Cada passo desnecessário, cada pergunta
desnecessária, cada pessoa adicional que não seja necessária
para a solução diminui a tensão e desvia a atenção
das pessoas e dos acontecimentos importantes.
Constelações
familiares densas
Freqüentemente é suficiente colocar somente dois representantes,
por exemplo, a mãe e o filho com aids. O terapeuta nem precisa
então dar maiores instruções. Deixa os representantes
seguir os movimentos que resultam do campo de forças entre
eles, entretanto sem nada dizer. Assim ocorre um drama mudo, no qual
vem à luz não somente os sentimentos das pessoas participantes
mas também emerge um movimento que mostra quais os passos que
são possíveis ou adequados para ambos.
O
espaço
Aqui se apresenta o mais surpreendente efeito da postura fenomenológica
e sua forma de procedimento. A contenção centrada do
terapeuta e do grupo participante cria o espaço no qual relacionamentos
e emaranhamentos vêm à tona. Eles se movimentam em direção
à uma solução dando a impressão de que
os representantes são movidos por uma força poderosa
exterior.
Esta
força serve-se deles e deixa parecer muitas das usuais suposições
psicológicas e filosóficas insuficientes e falhas.
A
participação
Em primeiro lugar vê-se que existe obviamente um conhecimento
através da participação. Os representantes comportam-se
e se sentem como as pessoas que representam embora nem eles nem o
terapeuta possuam informações prévias que vão
além dos fatores e acontecimentos externos mencionados anteriormente.
Muitas vezes o cliente fica estupefado que os representantes expressam
as mesmas coisas que conhece das pessoas reais ou que mostram os mesmos
sentimentos e sintomas que as pessoas reais têm. Por isso pode-se
concluir que os membros reais da família também possuem
este conhecimento através da participação de
modo que nada de significativo permanece oculto à sua alma.
Há
pouco tempo uma conhecida de uma mulher relatou que o seu pai era
judeu e que tinha ocultado este fato de seus filhos, batizando-se.
Ela tomara conhecimento disto pouco antes de sua morte. Nesta oportunidade
soube também que o pai tinha ainda duas irmãs que haviam
morrido em um campo de concentração. Esta mulher tivera
muitas profissões, uma atrás da outra. Primeiro tinha
sido uma camponesa, depois foi restauradora de velhos móveis
antes de escolher a sua atual profissão de terapeuta. Quando
então pesquisou sobre as circunstâncias da vida de suas
duas tias mortas veio à tona que uma delas administrara uma
fazenda e a outra uma loja de antigüidades. Sem ter conhecimento
disto tinha seguido as duas através de suas profissões,
ligando-se desse modo a elas.
O
campo de forças
O esclarecimento para isso permanece um mistério. Rupert Sheldrake
provou através de observações e muitas experiências
que cães demonstram através de seu comportamento que
sentem imediatamente quando seu dono ou dona que estão ausentes
se põem a caminho de casa e que percebem imediatamente quando
este caminho é interrompido. Sentem também, algumas
vezes, através dos continentes. Portanto, deve existir um campo
de forças através do qual ambos estão diretamente
ligados.
Os
mortos
Nas constelações familiares torna-se ainda mais evidente
através do comportamento dos representantes e com isso, naturalmente,
através do comportamento e dos destinos dos membros reais da
família que eles estão ligados às pessoas que
já faleceram há muito tempo. Como poder-se-ia de outra
forma ser esclarecido que numa família, durante os últimos
100 anos, três homens de várias gerações
tenham se suicidado com 27 anos de idade no dia 31 de dezembro e pesquisas
revelaram que o primeiro marido da bisavó tinha falecido com
27 anos no dia 31 de dezembro e tinha sido provavelmente envenenado
pela bisavó e seu segundo marido?
A
alma
Aqui atua mais do que um campo de forças. Aqui atua uma alma
comum que liga não somente os vivos mas também os membros
falecidos da família. Esta alma abarca somente certos membros
familiares e nós podemos ver pelo alcance de sua atuação
quais os membros da família que foram por ela abrangidos e
tomados a seu serviço.
Começando
pelos descendentes são os seguintes:
os
filhos, inclusive os natimortos e os falecidos,
os pais e seus irmãos,
os avós,
algumas vezes ainda um ou outro avô ou avó e também
ancestrais que estão ainda mais longe
todos - e isto é especialmente significativo - aqueles que
deram lugar para a vantagem dos membros mencionados anteriormente,
principalmente parceiros anteriores dos pais ou avós, e todos
aqueles que através de sua infelicidade ou morte a família
teve vantagem ou lucro.
as vítimas de violência ou morte causadas por membros
anteriores dessa família.
Sobre os dois últimos grupos mencionados gostaria de comunicar
o que experiências recentes trouxeram à luz. Nas colocações
das constelações familiares de descendentes de pessoas
que acumularam uma grande riqueza, chamou-me a atenção
que netos e bisnetos têm tido destinos terríveis que
não podem ser entendidos somente pelos acontecimentos dentro
da família.
Somente
depois que as vítimas cuja morte ou infelicidade havia sido
o preço para esta riqueza foram colocadas na constelação
veio à tona a extensão da atuação dos
destinos destas pessoas na família. Exemplos para estes casos:
trabalhadores que morreram na construção de ferrovias
ou sondagens de petróleo, cuja contribuição para
a riqueza e bem-estar dos industriais não tinha sido reconhecida
e valorizada. Em muitas colocações de descendentes de
assassinos, por exemplo, agressores nazistas do 3° Reich pôde-se
ver que os netos e bisnetos queriam se deitar junto às vítimas
e com isso corriam extremo risco de se suicidar.
A
solução para ambos os grupos era a mesma. As vítimas
devem ser vistas e respeitadas por todos os membros da família.
Todos devem reverenciá-las, inclinando-se diante delas, sentir
tristeza e chorar por elas. Depois disso, os ganhadores e agressores
originais devem se deitar ao lado das vítimas e os outros membros
da família devem deixá-los aí. Só assim
os descendentes ficam livres. Aqui fica evidente que os membros da
família se comportam como se tivessem uma alma comum e como
se fossem chamados a serviço por uma instância comum
preordenada e como se esta instância servisse uma certa ordem
e seguisse um certo objetivo.
O
amor
Em primeiro lugar podemos ver que a alma liga os membros da família
uns aos outros. Isso vai tão longe que a alma de uma criança
anseia seguir na morte o pai que morreu cedo ou a mãe que morreu
cedo. Pais ou avós também desejam às vezes seguir
na morte um(a) filho(a) ou um(a) neto(a). Podemos observar esse anseio
também entre parceiros. Se um deles morre o outro freqüentemente
também não quer mais viver.
O
equilíbrio
Em segundo lugar, podemos ver que existe em uma família uma
necessidade de equilíbrio entre o ganho e a perda que abarca
várias gerações. Isto é, os que ganharam
às custas de outros pagam com uma perda compensando assim o
que ganhou. Ou, se no caso dos ganhadores se tratarem de agressores,
geralmente não são eles que pagam, senão os seus
descendentes. Estes são escolhidos pela alma da família
para compensar no lugar de seus antecedentes, freqüentemente
sem que tenham consciência disso.
A
precedência dos antecedentes
A alma da família, portanto, dá preferência aos
antecedentes em relação aos descendentes, sendo este
o terceiro movimento ou a ordem que a alma da família segue.
Um descendente ou está disposto a morrer por um antepassado
se achar que com isso pode evitar a morte dele ou está disposto
a expiar a culpa pendente de um membro familiar anterior. Ou uma filha
representa a mulher anterior de seu pai e se comporta em relação
ao pai como se fosse a sua parceira e como rival em relação
à mãe. Se a mulher anterior foi injustiçada,
então a filha apresenta os sentimentos dessa mulher perante
os pais.
A
totalidade
Aqui podemos ver também o quarto movimento e a ordem que a
alma da família segue. Ele vela para que a família esteja
completa e restaura a sua totalidade com o auxílio de descendentes
para representar os que foram esquecidos, rejeitados ou excluídos.
Resumi aqui, de modo sucinto, os movimentos da alma da família,
as leis e as ordens que ela segue. Eu os descrevo minuciosamente em
meu livro " Die Mitte fühlt sich leicht an" ("No
centro sentimos com leveza") nos capítulos "Culpa
e Inocência em Sistemas", "Os Limites da Consciência"
e "Corpo e Alma, Vida e Morte" assim como em meu livro "Ordnungen
der Liebe" ("As Ordens do Amor") no capítulo
"Do Céu que provoca Doenças e da Terra que cura".
As
soluções
As questões são as seguintes:
Como
o terapeuta encontra uma solução para o cliente?
O
que é aqui o procedimento fenomenológico?
Ele
vai do próximo ao distante e do estreito ao amplo. Isto é,
em vez de olhar somente para o cliente o terapeuta olha para a sua
família e, em vez de olhar somente para o cliente e sua família
ele olha para além deles, para um campo de forças e
para a alma que os abarca. Pois é evidente que o indivíduo
e sua família estão integrados em um campo de forças
maior e em uma grande alma e são usados e tomados a seu serviço.
Da
mesma forma que o reconhecimento do problema e as soluções
possíveis só surgem freqüentemente através
da ligação com algo maior. Por isso se quero ajudar
a alma do cliente eu a vejo governada pela alma da família.
Mas se olhar aqui somente para o cliente e sua família, reconheço,
talvez , as ordens e leis que levam a emaranhamentos. Entretanto,
somente apreendo onde estão as soluções se encontro
um acesso ao campo de forças e dimensões da alma que
ultrapassam o indivíduo e a sua família.
Não
podemos influenciar estas dimensões da alma. Nós podemos
somente nos abrir. Porque quando se tratar de algo decisivo, a compreensão
das imagens, frases e passos que solucionam e curam nos será
presenteada por esta alma. O terapeuta abre-se para a atuação
desta grande alma através do recolhimento total de suas intenções
e sua consideração pelo que ele talvez receie, inclusive
o receio de fracassar. Então surge repentinamente uma imagem
ou uma palavra ou uma frase que lhe possibilita dar o próximo
passo. No entanto é sempre um passo no escuro.
Apenas
no final é que se releva se foi o passo certo que inverte a
necessidade. Através da postura fenomenológica entramos,
portanto, em contato com estas dimensões da alma. Isto é,
mais através da não-ação centrada do que
através da ação. Através de sua presença
centrada o terapeuta ajuda também o cliente a adquirir esta
postura, a compreensão e a força que daí advêm.
Muitas vezes o cliente não agüenta esta compreensão
e se fecha a ela novamente. O terapeuta também concorda com
isso, através de seu recolhimento. Também aqui ele não
se deixa envolver nem através de uma reivindicação
interna nem externa no destino do cliente e de sua família.
Pode
parecer duro, mas o resultado da experiência mostra que cada
compreensão que foi presenteada desta forma é incompleta
e temporária, tanto para o terapeuta quanto para o cliente.
Retorno,
no final, ao começo " à diferença entre
o caminho do conhecimento científico e do fenomenológico".
Eu a sintetizei num poema que escrevi já há alguns anos
atrás. Ele se chama:
Duas
maneiras de saber
Um erudito perguntou a um sábio,
como as partes se unem num todo
e como o saber sobre as muitas partes
se diferencia do saber sobre o todo.
O
sábio respondeu:
O disperso se agrega num todo
quando encontra seu centro
e passa a atuar.
Pois
so tendo um centro, o muito torna-se Essencial
e real,
e o todo então se nos revela como algo simples,
quase como pouco,
como força serena que segue adiante,
uma força que tem peso
e está contígua àquilo que sustenta.
Assim,
para conhecer
ou transmitir o todo,
não preciso
saber,
dizer,
ter,
fazer
tudo em detalhe.
Quem
quer entrar na cidade
passa por uma única porta.
Quem dá uma badalada num sino
faz retinir, com esse único som, muitos outros.
E quem colhe a maçã madura
não precisa averiguar a sua origem.
Ele a segura na mão
e a come.
O
erudito não concordou: quem quer a verdade,
tem que conhecer também todos os detalhes.
Mas
o sábio contestou.
Sabe-se muito apenas sobre a verdade que nos foi legada .
A verdade que leva adiante
é nova,
e ousada.
Pois
ela contém o seu fim
assim como, uma semente, a árvore.
Portanto, aquele que ainda hesita em agir,
porque quer saber mais
do que lhe permite o próximo passo,
não aproveita o que atua.
Ele toma a moeda
pela mercadoria,
e transforma em lenha
as árvores.
O
erudito acha
que essa só pode ser uma parte da resposta
e pede-lhe
um pouco mais.
Mas
o sábio se recusa,
pois o todo é, no princípio, como um barril de mosto:
doce e turvo.
E precisa fermentação durante um tempo suficiente,
até ficar claro.
Então, aquele que o bebe em vez de degustá-lo,
passa a cambalear embriagado