Meu Caminho no Círculo da Dança,
por William Valle
Danças
Circulares - o que são e de onde vem?
Danças circulares são danças de roda.
As
Danças Circulares estão presentes em antigas tradições de diversos povos de
todo o planeta. Suas origens se perdem no tempo e se confundem com as origens
do próprio Homem. Elas refletem a necessidade de comunhão entre os membros da
comunidade e se associam a diferentes momentos de suas vidas: o nascimento, o
casamento, o plantio, a chegada das chuvas, a entrada da primavera, a colheita,
a morte, etc.
“As
Danças Circulares são tiradas de muitas gerações, tradições e países.
Meditativas, vigorosas, pacíficas, não-competitivas, travessas, curativas e
divertidas, estas danças são para pessoas de todas as idades e atributos”.
Stefan Freedman
O
homem tem bailado desde que é homem. A dança tem sido parte de sua vida, não só
como espetáculo, mas antes de tudo, como uma de suas formas de viver. Tem sido
uma das formas de se unir com outros homens, de participar conjuntamente,
celebrar, comunicar-se, dizer com seu corpo o que as palavras não podem dizer
da mesma maneira.
A dança é a música transformada em
movimento, é a manifestação gestual da música. Neste sentido, podemos dizer que
dançamos somente quando fluímos junto com a música. A dança acontece quando já
não existe música e coreografia, quando já não nos preocupamos com os passos,
quando os pés já sabem o que fazer e nos conduzem pelo tempo.
“Dançar
é estar vivo!”
Isadora Duncam
Dançar é fluir no tempo. Dançar é fluir com
o tempo, é respirar a música. Em cada dança vivenciamos o ciclo de uma vida
pois cada dança é uma vida, cada dança tem o seu tempo e o seu espaço de ser.
Ela
se desenvolve em um processo de vida, desde o seu nascimento a partir do
silêncio até o seu retorno ao vazio de sua origem, em um grande fluxo que
obedece ao ritmo cósmico de expansão e contração.
“As
danças são fonte inesgotável de passos, temas, imagens, qualidades de
movimento. Com as danças, podemos tomar elementos para integrar à nossa própria
realidade, podemos descobrir possibilidades de uso do nosso corpo, de nossas
energias, do espaço, podemos descobrir novos ritmos e sons para produzir,
participar, compartilhar, nos tornar inteiros.
Talvez
assim possamos viver, compreender, sentir o que nenhum livro, nem filme, nem
espetáculo pode proporcionar-nos da mesma maneira.”
Débora Kalmar
Sobre
os diferentes tipos de dança:
Do ponto de vista da experiência, as danças
podem ser separadas em dois diferentes grupos:
·
danças que são acompanhadas por música
mecânica
·
danças que são realizadas com a execução da
música viva, real, orgânica.
Cada uma das duas
experiências produz um tipo diferente de ‘atmosfera’ no ambiente e demanda um
tipo diferente de habilidade do facilitador e dos dançarinos (e músicos, se for
o caso).
Uma das
diferenças fundamentais entre as duas experiências e que salta aos olhos, diz
respeito ao TEMPO.
No primeiro caso,
o tempo de existência da dança é fixo, está gravado e determinado na fita k7 ou
no disco. É algo que foi concebido no passado e que através de sua gravação,
nos possibilita realizar uma viagem ao encontro daquele momento em que a experiência
foi realmente ‘vivida’. Quando passamos pelo processo de assimilar uma
coreografia, nos utilizando da música mecânica, num certo sentido temos de nos
abrir para reconhecer e trazer de volta à vida presente aquele sentimento ou
aquela inspiração que gerou tal música e coreografia. É como se voltássemos no
tempo e nos encontrássemos com o compositor e o coreógrafo.
No segundo caso,
o tempo de existência da dança é móvel, podendo variar de acordo com o momento,
o espaço disponível, o grupo que vai dançar, etc. A habilidade que nos é
exigida é estarmos com a atenção direcionada para fora, para as relações entre
os movimentos dos dançarinos e dos músicos. Estamos no momento exato da
criação, somos senhores da criação, somos co-criadores. Dependendo da energia
presente no grupo e da interação entre facilitador e participantes, a dança
pode se desenvolver por cinco, dez, quinze minutos ou mais. Enfim, o tempo de
duração vai depender dos recursos disponíveis, das pessoas e das relações
presentes.
Entretanto, uma
habilidade é exigida igualmente nas duas experiências. A capacidade de se
despojar, de se abrir, de ouvir, pois é a música que conduz a energia e o
movimento.
Nesse sentido,
não há diferença entre as duas experiências e qualquer dança, cantada ou não
pode nos conduzir a um estado de profunda alegria e comunhão.
Sobre
as danças que constituem o repertório das danças circulares’:
Atualmente as
danças circulares constituem um repertório que abrange danças com origens e
propósitos bem diferenciados.
Poderíamos
classificar as danças nos seguintes grupos:
·
Danças da Paz Universal
·
Danças Sagradas Circulares (ou simplesmente
Danças Sagradas)
·
Brincadeiras cantadas
Além desses grupos, fazem parte do
repertório das danças circulares outras danças de roda como as danças
indígenas, a ciranda, etc.
Sobre
as ‘Danças Sagradas Circulares’:
As
danças sagradas circulares foram introduzidas na Inglaterra a cerca de vinte
anos atrás por Bernhard Wosien, um professor de dança, alemão, que dedicou
muitos anos de sua vida a coletar danças de todo o mundo.
Ele
ensinou danças circulares em Findhorn, uma comunidade espiritualista
alternativa estabelecida no noroeste da Escócia.
De lá para cá, o interesse por elas cresceu
rapidamente e as danças se multiplicaram e se espalharam por todo o mundo.
“Você que move o mundo, mova-me também.
Remova-me
das profundezas e eleva-me ao alto, a Você.
Eu danço
esta canção do silêncio.
E
movimento meus pés pela música do cosmos.
Eu dirijo
minha dança ao Paraíso
E sinto
Seu sorriso me abençoando.”
Bernhard Wosien
Sobre
Bernhard Wosien:
Após
toda uma vida dedicada ao balé e a dança de palco, em 1960 Bernhard Wosien se
dedicou inteiramente a ensinar, e criou um grupo de dança na Escola Pública
Superior de Munich. Durante as férias, ele levava o grupo à Grécia e Yugoslávia
onde eles puderam então aprender as velhas danças européias nos seus locais de
origem. Nestes países, as antigas danças de roda ainda se mantinham vivas, e
para eles, elas se tornaram rodas de deleite!
O
fundo religioso e cultural destas danças se revelou intensamente a B. Wosien.
Ele acreditava que cada pessoa tinha que dançá-las e estar totalmente presente
para descobrir seu significado e poder de cura. Somente então elas revelavam a
si mesmas em sua origem religiosa: o caminho da Unidade, da separação para a
identidade, para a vibrante comunhão.
“As
danças revelam e expressam o sentido da adoração, do culto através da forma e
do símbolo. Trabalhando com nossos próprios instrumentos, nossos corpos,
traçamos um caminho que conduz a ambas as experiências: de nosso próprio ‘eu’
individual e também da vida do grupo, da comunidade. Isto tem um efeito
terapêutico natural, e então estas danças conduzem à cura e ao todo. O que eu
tenho compreendido depois de uma vida de dança é que a dança é uma meditação em
movimento, uma caminhada em direção ao silêncio onde todo movimento se torna
uma oração.”
Benhard Wosien
Sobre
as Danças da Paz Universal:
As Danças da Paz Universal nasceram dentro
do movimento sufi, em fins da década de 60, início de 70, através da inspiração
de Samuel Lewis. São danças cantadas
que objetivam contribuir para uma sociedade mais pacífica e tolerante do ponto
de vista religioso.
Nelas são cantadas palavras sagradas de
diferentes tradições religiosas da humanidade. Sua filosofia básica parte do
princípio de que todas as religiões
veneram o mesmo Deus, sob diferentes nomes e formas. Então, se as pessoas se
dispõe a estar em uma roda cantando mantras e orações e fazendo gestos
relativos a uma religião ou crença diferente da sua, em algum nível se
estabeleceu a Paz dentro do indivíduo. Dessa maneira, o sentimento de Paz e
União vai se fortalecendo na humanidade.
Sobre
Samuel Lewis:
Samuel Lewis (1896 - 1971) foi grandemente
influenciado por duas pessoas no processo de criação das Danças da Paz
Universal. A primeira foi Ruth St. Denis, sua instrutora de danças, que é
considerada a mãe da dança moderna na América. Ela acreditava que por trás de
cada gesto físico há uma motivação emocional ou espiritual.
Samuel Lewis também era um estudioso de
religiões comparadas e foi nesse campo que teve a sua segunda grande
influência: o músico indiano Hazrat Inayat Khan e seu conceito de unidade dos
ideais religiosos. Khan estudou profundamente várias tradições religiosas,
incluindo o cristianismo, o judaísmo, o budismo e o sufismo, tendo se
concentrado principalmente nas expressões verbais de cada tradição.
Lewis percebeu que a Paz era um desejo
fundamental do ser humano, que ultrapassava as fronteiras de culturas e
idiomas. Ele usou o círculo como um símbolo universal de unidade e desenvolveu
uma forma de dança circular com foco no som, na respiração, no movimento e nas
orações, mantras e afirmações feitas em vários idiomas sobre a unidade e a paz.
Seus primeiros alunos foram os jovens dos anos sessenta.
Lewis nos deixou cerca de cinqüenta danças.
Após o seu falecimento, o movimento das Danças da Paz Universal floresceu e se
expandiu por vários países representando culturas e tradições religiosas de
todo o mundo em mais de quinhentas coreografias.
Atualmente as danças são aplicadas em
escolas, hospitais, praças, grupos terapêuticos, etc. As suas possibilidades de
aplicação são infinitas e elas são levadas a qualquer lugar ou grupo de pessoas
que queiram redescobrir a reverência, a criatividade e a unidade com os seus
semelhantes.
“Para
acabar com as guerras, precisamos acabar com as atitudes de guerra”.
Samuel Lewis
Sobre
as brincadeiras cantadas:
Uma parte importante do trabalho com as
danças circulares e que tem crescido muito no Brasil diz respeito às
brincadeiras de roda cantadas. Trata-se daquele repertório de rodas cantadas
que é transmitido para as crianças pela família, pelos amigos e colegas
espontaneamente, em momentos de lazer.
Atualmente, é grande o número de pessoas
que se dedica ao resgate, à preservação e à transmissão dessas brincadeiras.
Isto se deve, principalmente pela constatação de que as brincadeiras cantadas
tem um papel fundamental no desenvolvimento da criança. Brincando, a criança se
desenvolve por inteiro, física, psicológica e socialmente.
O aprendizado das brincadeiras permite que
a criança expresse a sua criatividade, a sua alegria de viver, a sua imensa
vitalidade. Além disso, a brincadeira prepara a criança para a vida, para a
relação com os demais, para a realização de seus objetivos. Brincando, cantando
e girando, ela se desenvolve como indivíduo e assimila os valores de sua
cultura, que foram sendo transmitidos de geração a geração.
Brincar é a atividade mais séria da
criança!
Porque
se dançar em círculo?
Talvez um dos motivos que fazem das danças
circulares algo tão envolvente seja o fato das coreografias se constituírem em
fenômenos cíclicos.
Ou seja, os passos são agrupados em
seqüências que se repetem no decorrer de toda a música. Dessa maneira são
reproduzidos os ritmos da natureza: o começo e o fim, o nascimento e a morte, o
dia e a noite, as estações do ano, além dos ciclos que compõe a biografia
humana.
Assim nós somos levados a perceber as
mudanças que vão acontecendo em nossas vidas, vamos nos percebendo seres
mutantes que, a cada repetição ocorrente já não somos mais os mesmos que da
última vez.
“Um
homem não pode entrar duas vezes no mesmo rio;
o
homem será diferente e o rio também.”
Heráclito, 500 a.C.
As danças se constituem também num
importante recurso a ser utilizado em processos educativos sociais.
No círculo se trabalha o equilíbrio entre o
indivíduo e o coletivo. Na roda, somos convidados a estar presentes, a
participar de maneira plena dos processos de transformação social.
Colocados em círculo, percebemos a nossa
identidade com o outro pois, ao mesmo tempo em que reconhecemos a nossa
igualdade - a unidade que habita no centro - também acolhemos a presença única
e insubstituível de cada um que está colocado em pé na linha da circunferência.
Desse modo, desenvolvemos suave e gradativamente o respeito e a valorização das
diferenças, além de podermos vivenciar a realidade da interdependência que
permeia as relações humanas.
Em outras palavras, poderíamos dizer que,
no círculo, desenvolvemos o equilíbrio entre a coragem e a consideração.
Coragem, no sentido de que somos estimulados a participar de forma íntegra, em
uma ação que vem do coração. Consideração, no sentido de que nos colocamos em
uma disposição espacial que considera todos os presentes, uma forma na qual
podemos olhar para todos e ao mesmo ser vistos por todos os demais.
Este equilíbrio também é buscado no cuidado
com o simples gesto de dar as mãos. Em uma roda de dança todos dão as mãos
observando a polaridade entre o dar e o receber, entre o ativo e o receptivo,
entre o Yin e o Yang. Dessa maneira, com a palma da mão esquerda voltada para
cima e a palma da mão direita voltada para baixo, todos contribuem para o fluir
da energia no grupo. Todos estão recebendo e doando ao mesmo tempo. A
informação flui de mão em mão. Ninguém retém e ninguém é esquecido.
O círculo é essencialmente inclusivo.
Ignorar um componente ou a manifestação de um componente da roda seria, num
certo sentido ir contra a tendência natural do círculo. Por isso, as danças
circulares tem muito a contribuir para uma visão holística do homem, sendo um
instrumento poderoso na construção de uma ecologia social.
Uma
visão:
As danças fazem parte de minha vida desde
1990 quando fui morar no Centro de Vivências Nazaré, uma comunidade
epiritualista que fica no município de Nazaré Paulista em São Paulo.
Lá tive a visão da dança de roda como uma
grande sinfonia em que os instrumentos que são tocados são os próprios corpos
das pessoas que compõe o círculo. Dessa maneira, podemos afinar os nossos
corações e as nossas mentes, nos conhecendo e nos transformando, como
indivíduos e como grupo.
“Dançar
em círculo é algo como conspirar - respirar junto -
e
conspirar é aspirar a um verdadeiro sentimento de comunhão,
de
cooperação, entre um e outro, entre indivíduo e grupo.”
William
Valle
*
Texto escrito para a revista ‘Tecendo Idéias’, produzida pelo Cenap - Centro
Nordestino de Animação popular